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Quinta-feira, Abril 3, 2025

18 de maio: Como acabar com o abuso e a exploração sexual de crianças no Brasil?

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

É muito triste e revelador, ter que existir o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes num país como o Brasil. O Congresso criou a data através da Lei 9.970, em 2000, e escolheu o 18 de maio, porque nessa data em 1973, a menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo, de apenas 8 anos, foi torturada, estuprada e assassinada, em Vitória, capital do Espírito Santo. Crime que mostra a crueldade de parcela da sociedade brasileira.

Conhecido como o “Caso Araceli”, os acusados Paulo Constanteen Helal e Dante Michelini, pertencentes a famílias da alta sociedade capixaba, foram condenados em 1980. Mas nem a Constituição Federal, de 1988, nem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, impediram a absolvição dos réus, em novo julgamento, em 1991. Até hoje não se sabe ao certo sobre as circunstâncias desse crime hediondo.

A realidade é que os números da violência contra crianças e adolescentes no país, são aterradores. Como mostra o 13º Anuário de Segurança Pública, divulgado o ano passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2018, foram notificados 66.041 casos de estupros no país, sendo 53,8% contra meninas de até 13 anos e a maioria absoluta por pessoas conhecidas das vítimas e em suas casas.

“Numa sociedade extremamente cruel contra a infância e a juventude, precisamos de mecanismos de defesa dessa parcela da população, totalmente vulnerável”, assinala Vânia Marques Pinto, secretária de Políticas Sociais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

“Na atual conjuntura fico pensando como ficam essas crianças e adolescentes em meio à quarentena. A quem essas crianças e adolescentes podem recorrer?”, questiona.

E como a violência doméstica cresce em meio à pandemia, Luiza Bezerra, secretária da Juventude Trabalhadora da CTB, acredita ser essa “uma situação muito grave com a necessidade de ações rigorosas para proteger as crianças e os adolescentes”.

Ela explica ainda que “a Constituição e o ECA asseguram os direitos das crianças e adolescentes a uma vida em segurança e em paz, mas a realidade é muito perversa”.

Glícia Salmeron, presidenta da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, da Ordem dos Advogados do Brasil, defende a importância de as pessoas aprenderem a ter “um olhar cuidadoso e observador do entorno das crianças e dos adolescentes. Elas precisam ser escutadas e percebidas”.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) está atenta e qualifica a exploração sexual como uma das piores formas de exploração do trabalho infantil. Além da utilização, o recrutamento ou a oferta de crianças para a prostituição e a produção de pornografia são considerados crimes também.

Sonhos Roubados (2010), de Sandra Werneck

Lembrando que no Brasil, de acordo com o IBGE, 2,4 milhões de pessoas de 5 a 17 anos trabalhavam no país em 2016.

O fato é que no Brasil, a situação de vida das crianças vem se deteriorando porque o desgoverno Bolsonaro destrói todas as políticas de defesa dos direitos das crianças e adolescentes ao destituir os conselheiros da sociedade civil do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Como está fazendo com todas as políticas de promoção dos direitos humanos, de gênero e em favor das pessoas em situação de vulnerabilidade.

Atualmente, muitos assédios, abusos e exploração acontecem virtualmente com a propagação de fotos, vídeos e conversas de cunho sexual com crianças e adolescentes. “Tudo isso também é catalogado como abuso porque as crianças e adolescentes não têm a exata percepção dos fatos”, avalia Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB.

O Disque 100 recebeu, entre 2012 e 2016, 175 mil denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes, ou seja, quatro casos por hora. Estatística assustadora.

Aliás, garante Luiza, “seja virtual ou real, “as crianças ficam perturbadas com esses abusos porque não sabem diferenciar o carinho do abuso”, portanto, “esse tipo de crime pode deixar sequelas graves para toda a vida delas”.

Por isso, para Celina, “devemos desenvolver um amplo trabalho com mobilização de toda a sociedade civil organizada para uma ampla divulgação da necessidade de se debater as questões de gênero, inclusive nas escolas, sem nenhum tabu e com realismo, desde já”.

A legislação brasileira define como abuso sexual quando um adulto utiliza o corpo de uma criança ou adolescente para sua satisfação. E exploração sexual quando se para pelo sexo com pessoas com menos de 18 anos ou quando as obriga à prostituição. Esses crimes são passíveis de prisão.

O problema é que há uma subnotificação muito grande desse tipo de crime no país, porque “A maioria é cometido por pessoas conhecidas das vítimas, quase sempre familiares, além de predominar o medo”, argumenta Gicélia Bitencourt, secretária da Mulher da CTB-SP.

Para piorar, as denúncias feitas ao Disque 100, em 2018, mostraram que 29,82% das vítimas de abusos e exploração sexual tinham entre 12 e 14 anos e 19,52%, pasmem, eram crianças entre 8 e 11 anos.

Documentário “Desumanidades: cinco relatos sobre violência sexual” (2016)

Neste momento, de isolamento social por causa da pandemia, “é muito importante ações combinadas entre todos os setores de combate a esse crime com a utilização das novas tecnologias e ampla informação à sociedade de como agir para proteger suas crianças”, conclui Luiza.


Texto em português do Brasil


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