Melhor, o rapaz tinha uns pés que sonhavam ser garrafas de champanhe, que, em vez de lhes apetecer surfar em águas verdes, enormes e bravas do Havai, só se estimulavam em danças, sobretudo canalhas, o que fazia prazeira e longamente longe da arena pública. Porque as cenas eram semiprivadas, exibia-as no Bar.
Então uma ideia soberana começou a reinar, a criar nele uma dança original, que lhe facilitasse a sedução, daquelas que um rapaz chega, e a dança e os olhos fazem tudo o resto.
Um dia, numa decisão quase tão mítica como a extraordinária e longa viagem do Dragão de Cómodo, disse à sua médica, à sua psicóloga, que tinha reservado para ela um argumento imunológico:
– A dança do champanhe!
O rapaz que tinha uns pés que sonhavam ser garrafas de champanhe, nessa noite, rolhou-se à volta dela, num bailado de braços florais, no maior dos seus, até então, abraços.
E ela, já que era ela a sua volta, deixou-o rodar e deu-lhe os seus olhos para que ele tomasse conta deles.
O rapaz que tinha uns pés que sonhavam ser garrafas de champanhe e entendiam o que mais ninguém entendia, e tinham o dom da ingenuidade, ficou rouco de tanto festejar o fim de um amor antigo com champanhe e brindes à psicóloga e ao Bar dos Canalhas onde se conheceram com frases repletas de “ontens”, em visitas que o coração ditou ao longo da praia.
Depois…é uma história normal:
Ela deu-lhe tudo, até uma costela.
Não houve testemunhas, porque o bar estava fechado e porque o mar de Cascais estava a ressonar.