Blame Canada. A culpa é do Canadá!
Foi no ano de 1999 que a canção satírica “Blame Canada” entrou para a galeria dos fenómenos da cultura popular. Hoje surgiria com um ashtag e bateria recordes nas redes sociais. O tema foi mesmo nomeado para os Óscares da Academia na categoria melhor canção original, tendo sido interpretado durante a cerimónia desse ano pelo já desaparecido comediante Robin Williams. Na Amazom ainda se pode adquirir merchandising alusivo.
Blame Canada estava inserido na série de animação norte-americana “South Park”, que se tornou num fenómeno de culto junto de um público constituído por jovens adultos. Vivia-se um tempo em que o politicamente incorreto era cool e, em South Park, a crítica à sociedade americana era mordaz, cáustica…. Importa relembrar que culpar o Canadá surgiu como bode expiatório para os pais de South Park que, desleixando a educação dos filhos, culpavam os personagens canadianos duma série de animação pelo mau comportamento das suas crias.
O tempo passou, a geração de jovens adultos de então deu lugar aos Millennials e à Geração Z. O politicamente incorreto deixou de ser cool, sendo substituído pelo seu oposto, e o Canadá deixou de ser satiricamente apontado como bode expiatório para os “defeitos” do seu vizinho, para ser efetivamente apontado por um crime que se torna mais chocante por se ter alongado a um tempo em que todos pensaríamos tal já não ser possível.
Em concreto, desde o séc. XIX até meados dos anos 70 do séc. XX, mais de 150.000 crianças indígenas foram forçadas a frequentar escolas católicas em regime de internato. Tudo isto inserido num esforço para as “integrar” na sociedade canadiana, apoiado pelo estado. Milhares (cerca de 4.000, segundo uma comissão investigadora) acabaram por morrer. As valas comuns começaram a ser descobertas junto às “escolas” referidas. A indignação foi, obviamente, geral. Afinal esta prática não decorreu no séc. XVI e muitos dos responsáveis pela mesma, de políticos a agentes católicos, estarão entre nós…
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A indignação gerou protestos inflamados. Igrejas foram pichadas e incendiadas. Entre os culpados não se encontram apenas instituições ligadas à igreja de Roma, mas também presbiterianas e protestantes. Mas o facto de o Papa ter expressado a sua dor sem incluir um pedido de perdão terá caído mal no Canadá. Recentemente os bispos católicos do país deram esse passo, mas não o Papa. Blame Vaticano!
A reconciliação histórica no Canadá não é algo de novo. A descoberta dos corpos de crianças será um episódio pungente, que nem terá surpreendido a população indígena do país. Atualmente, o mesmo primeiro-ministro que segue a moda de ajoelhar e pedir perdão, é líder de um governo que contesta uma decisão judicial que decidiu a atribuição de uma compensação de 40.000 dólares canadianos às crianças indígenas e respetivas famílias. Blame Canada!
Mas se os protestos inflamados após a descoberta dos corpos das crianças serão uma manifestação de indignação universalmente compreendida, outras fogueiras purificadoras têm sido ateadas no Canadá, e que nos fazem afirmar, alto e bom som, “Thank you Canada!”. Pelo exemplo do que não queremos fazer…
Os factos remontam ao ano de 2019. Por decisão de um conselho escolar localizado a sudoeste de Ontário, entidade pontuada por uma autodenominada “guardiã do conhecimento” (estas coisas não se inventam…) de seu nome Suzy Kies e ligada ao partido no poder, foi decidido proceder a uma espécie de reedição da Bucherverbrennung nazi (queima de livros para purificar a cultura alemã das influências nefastas)! A ação canadiana visava a retirada de livros infantis considerados nocivos para as populações indígenas, incluindo uma “purificação pelas chamas” de alguns, em cerimónias a realizar pelas escolas. Só uma das cerimónias foi concretizada. A pandemia de Covid-19 interrompeu o processo. E assim, se os nazis queimaram Zweig, Thomas Mann e Freud, apenas alguns exemplares de Tintin, Astérix e Lucky Luke terão ardido nas chamas purificadoras. Os restantes permaneceram no corredor da morte a aguardar o fim da pandemia.
Já se sabe que os períodos de campanha eleitoral são pródigos em “coincidências”, e o que aconteceu em 2019 rebentou em véspera das eleições canadianas de setembro de 2021… Perante a polémica, que ultrapassou as fronteiras do país, o primeiro-ministro Justin Trudeau foi conciliatório. Digamos que disse um “nim”, referindo que a título pessoal nunca concordaria com queimas de livros, mas que não cabe a pessoas não indígenas dizer a indígenas como devem sentir-se ou agir.
Mas o mundo continuou a girar, e enquanto o Canadá promovia fogueiras de purificação, a multipremiada série de animação South Park concluiu a 23º temporada. Os seus autores, Trey Parker e Matt Stone, dando mostras que continuam em boa forma, lançaram a campanha #CancelSouthPark… Falharam no seu auto-cancelamento e a 24º temporada lá estreou. Mas o que Trey Parker, Matt Stone ou qualquer outro criador, mesmo o mais irreverente e imaginativo do mundo, jamais poderia imaginar, foi o que se passou no Canadá…
A bomba foi lançada pela Radio-Canada. Suzy Kies, a grande promotora da Bucherverbrennung canadiana e vice-presidente da Indigenous Peoples Commission do partido de Justin Trudeau, afinal era uma fraude. A “guardiã do conhecimento”, ao contrário do que afirmava, não tem nas suas origens antepassados indígenas. Kies demitiu-se. O Conselho escolar onde era “guardiã” revelou que iria rever o processo e Trudeau, que tinha antecipado as eleições na perspetiva de alcançar uma maioria como resultado da reconhecida boa gestão da crise pandémica, teve de lidar com críticas bem contundentes: é que 600 milhões de dólares canadianos depois (custo aproximado do ato eleitoral antecipado), ficou tudo basicamente na mesma, incluindo a maioria relativa do seu partido.
Tintin, um dos purificados pelas chamas redentoras, e o seu criador Hervé (Georges Prosper Remi), merecem aqui um apontamento especial e uma volta no tempo e no espaço que nos transporta a Portugal. Afinal, o álbum “Tintin no Congo” anda envolvido nestas polémicas há algum tempo. Em certas bibliotecas nos EUA, a consulta da obra implica uma autorização especial, burocrática e demorada. Já na Europa, têm sido interpostos processos judiciais visando a interdição da venda do livro (sempre recusados pela justiça). O trabalho de Hergé, como é reconhecido, apresenta óbvias conotações racistas das quais os atuais “grandes educadores” nos querem proteger. Proteger de nós próprios e das nossas eventuais ideias impuras! Tal como fazia a ditadura salazarista…
TinTin começou a ser publicado em Portugal em fascículos inseridos em revistas da especialidade, que faziam as delícias de criançada. Uma dessas publicações foi o “Cavaleiro Andante” (1952-1962) que, entre outros, publicou “Tintin na América”, uma aventura que passava pela cidade de Chicago, onde os gangsters reinavam com a complacência da polícia. A arte dos quadradinhos tem a sua forma de fazer passar mensagens, e na edição original lá consta um gangster, de pistola na mão, a receber a continência de um polícia. Mas na edição dos tempos da ditadura, nesse quadradinho o polícia surge “cancelado” e a legenda alterada…. Enfim, a censura a salvaguardar a população de más influências, tal como pretende fazer hoje uma certa vanguarda que converge com a ditadura na pulsão censória. Este delicioso pormenor é relatado com detalhe, e ilustrado, pelo ex-diplomata Francisco Seixas da Costa no seu blog(1).
No dia 1 de outubro de 2021, a Fundação Calouste Gulbenkian inaugurou a exposição “Hergé” na qual o trabalho do polémico autor é passado em revista, com ações que vão desde a exposição das pranchas originais onde criou as aventuras de Tintin, aos debates que abordam os aspetos mais polémicos da sua obra, ideias e percurso de vida. O debate em vez das chamas. O conhecimento alargado e sem censura em vez do cancelamento.
Não é todos os dias que damos uma volta ao mundo e acabamos com um bom exemplo à porta de casa.
Nota
(1) duas-ou-tres.blogpot.com – “Tintin e os polícias”, 09.01.2011