Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.
XXXVI. A minha Esperança em amarelo Van Gogh.
Minha memória,
Tenho esperança. Tenho sempre muita esperança. Tenho esperança no tempo que agora recordo e creio que voltará um outro dia. Tenho esperança na felicidade que vai pautando os meus passos e as minhas lembranças. Tenho esperança em ti também, minha memória, e naquilo que me recordas.
Hoje acordei assim. O tempo chuvoso a gritar infortúnio. Como se a chuva não fosse a água que alimenta. Os sonhos a gritarem infortúnio, passados integralmente numa negritude pasmada de noite.
Alguém, um dia, associou o negro ao mal e, esqueceu-se de que o negro pode ser risonho e feliz. Pinto de negro as minhas pestanas e os meus olhos. Pinto de negro os meus cabelos e são negros os meus vestidos, e gosto tanto quando passeio desvairada por uma avenida anoitecida de Inverno, tão de repente.
Tenho muita esperança minha memória e sabes, é a esperança que pinta de beleza os acontecimentos que revejo. Lembro-me sempre à sombra da esperança. Por causa disso, as coisas todas que sucederam ganham uma nova vida e consigo agora pô-las a dançar, mesmo quando sei que esse tempo que se passou nada tinha de dança.
Cada acontecimento do passado chega-nos num determinado instante e é por ele que se revela. Não é por isso uma coisa de somenos esta minha esperança. Ela serve para o que se vive e também para a forma como se recorda. É por isso que de cada vez que me remetes um terminado acontecimento eu o consigo recordar de uma forma diferente. Por vezes, acho que ao reviver acabo por viver também. Eu sei que não era essa a cor do Verão, mas é essa a minha cor de hoje, deste meu Inverno que se imagina Verão e que se mistura à cor de um outro Verão.
Penso que por vezes me remetes o passado, minha memória, envolto em sépia. Cabe-me a mim pintalgar tudo com alegria, com negritude dançante, com transparência ou com o amarelo de Van Gogh que sobrevive pendurado num vaso equilibrista na minha janela.
Um dia, minha memória e, lembras-me tantas vezes disso, apercebi-me que o amarelo Van Goghg tinha jazia pendurado na minha janela. Um cacto enorme com uma ponta de fogo em forma de flor adormecida e balouçante. Fiquei ali, pasmado a olhar para ele. A vê-lo rodopiar de amarelo, ao ar, como se nada mais existisse ou nada mais fosse importante. Nesse dia percebi que tinha ganho uma razão. Uma imensa razão e por causa dela comecei a transformar o presente primeiro, e depois o passado, à luz desta minha esperança.
Creio por isso, que o que origina a esperança nasce logo de manhã, do amarelo Van Gogh que sobrevive de cabeça para baixo, na minha janela e, muito devagarinho, ainda eu estou a dormir, entra por uma pequena fresta para dentro da cozinha.
Depois, é o que sabes. Esta alegria anunciada em forma de flor, de riso, de água corrente que tem uma luz própria e se chama esperança. A esperança é pois feita da matéria do amarelo de Van Gogh, disso tenho absoluta certeza.
Amanhã traz-me tudo o que tu quiseres. Mesmo que eu tenha chorado de tristeza ou de angústia. Mesmo que eu tenha sofrido, mesmo que tu tenhas sofrido-eu sei que sim, minha memória e o teu sofrimento é o de quem nunca esquece – traz-me tudo. Não interessam as nunces que não são senão os detalhes dos acontecimentos, não interessam as sombras, nem as cores, nem o cinza que muitas vezes são apenas as matizes daqueles que partiram das nossas vidas. Traz-me tudo minha memória que eu farei da minha vida que se passou um baile, redondo e esperançoso, em amarelo, pois claro.
Campo de Trigo com Ceifador, de Vincent van Gogh (1889)
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