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Sábado, Abril 5, 2025

Conflitos em Chicago: comentadores defendem o “não” ao ódio

conflitosOs comícios de Donald Trump, candidato republicano à presidência dos EUA, foram notícia por distúrbios entre apoiantes e adversários do bilionário, que chegou a acusar o senador democrata Bernie Sanders de ser o instigador dos conflitos; Trump ameaçou o político democrata nestes termos, na sua conta de Twitter: “Tem cuidado, Bernie, ou os meus apoiantes vão aos teus !” Apesar de insistir que não apoia comportamentos violentos, o empresário instruiu a equipa de campanha para apoiar financeiramente um seu apoiante que agrediu um cidadão afro-americano que protestava contra a presença de Trump.

Em reacção ao post de Trump, Sanders respondeu: “Donald Trump está literalmente a incitar a violência por entre os seus apoiantes. Isto é um ultraje e eu espero que o Sr. Trump abrande e muito, e diga aos seus apoiantes que a violência não é aceitável no processo político americano”.

O site Democracy Today convidou para comentar estes acontecimentos Amalia Pallares, professora de Ciência Política e de Estudos Latinos na Universidade de Illinois, e Yasmeen Elagha, estudante de Ciência Política e Urbanismo, que também preside à organização Palestine Children’s Relief Fund e organizou o protesto contra Trump na sexta-feira passada.

Pallares comentou que, uma semana antes do comício (que veio a ser cancelado), toda a população estudantil soube que Trump ia visitar a Universidade sediada em Chicago.

“Houve reacções diferentes: houve uma página de Facebook criada, e um grupo de estudantes resolveu avançar com um protesto. Também havia uma petição que circulou, creio eu, que já tem 50 mil assinaturas, pedindo o cancelamento do evento”. Na semana seguinte, prosseguiu a docente, uma carta aberta de alunos e funcionários universitários, pediu às instâncias superiores para repensarem a marcação do evento, alegando razões de segurança de toda a comunidade universitária.

Yasmeen Elagha revelou que foi criado um chat de grupo para os estudantes organizarem o protesto, e o planeamento foi algo “esporádico”, admitiu. Houve um encontro entre todos dias antes do planeado comício, onde se decidiu que “ia haver um protesto dentro do recinto e outro fora dele”. E a organização, na verdade, para minha surpresa, deu-se de forma bastante suave.

E ao longo da semana, apenas falávamos uns com os outros”. O alvo dos protestos era “o discurso de ódio de Donald Trump e as suas tentativas de dividir a nação. Mas como estudantes, protestávamos com diferentes ideias. O meu grupo focava-se nas declarações dele visando os refugiados e os imigrantes, enquanto que outro grupo protestava contra o discurso de ódio dele contra muçulmanos…”, acrescentou a estudante, esclarecendo que estes sub-grupos estavam dispersos.

Amalia Pallares explicou o teor da carta aberta: “nós respeitamos a liberdade de expressão, mas sentimos que dada a diversidade no nosso campus, tendo em conta a nossa comunidade, pensámos que as questões de segurança e protecção deveriam ser tomadas em conta.

E ainda acredito que quando um evento destes acontece no campus, quando existe um historial de ataques que ostracizam pessoas de cor (e a maioria dos nossos estudantes são pessoas de cor) acho que é uma consideração a ter, da parte da universidade, de ter em conta a segurança e protecção quando um evento é sediado lá”, explicou.

A docente acrescentou que era sabido que iam ocorrer protestos naquela ocasião, e que a principal preocupação era de evitar problemas caso se fossem interrompidos e expulsos.

Quanto às declarações de Trump, que justificou o cancelamento do comício em Chicago com conselhos da polícia, a professora universitária sublinhou que a própria polícia de Chicago declarou que jamais tinha aconselhado o candidato a fazê-lo.

“A universidade estava preparada para fazer de tudo por forma a assegurar que o comício ia acontecer e que Trump teria a sua liberdade de expressão protegida, bem como toda a segurança em torno disso.

Assim, ninguém recomendou o seu cancelamento”, insistiu Pallares.

Já Yasmeen Elagha admitiu que o cancelamento do comício foi de encontro aos objectivos dos manifestantes, frisando as declarações de Pallares: “Ninguém o aconselhou a fechar o cancelar o comício”. Chegou a designar como “histórico” o momento em que os protestos levaram à desistência dos planos de Trump. A estudante calcula que a proporção de apoiantes e adversários de Trump nos protestos de Chicago era de 50/50.

O Democracy Now reproduziu as declarações de Donald Trump, depois do tweet dirigido a Bernie Sanders, senador democrata pelo estado do Vermont. “Não é sequer uma ameaça”, dizendo que seria interessante que os seus apoiantes fossem aos comícios do político democrata. “Toda a gente pensa que sou o mau da fita”, lamentou-se o bilionário, que insinuou que apoiantes republicanos não seriam bem tratados nos comícios democratas e que está a ser tratado de forma injusta pelos media.

A estudante Elagha insistiu que os protestos foram um sucesso e que não eram “pessoal de Bernie” nem sequer enviados pelo staff do candidato democrata. “Éramos apenas estudantes preocupados. Não apoiamos qualquer candidato”, frisou, acrescentando que nem sequer receberam qualquer mensagem do senador do Vermont.

Para a docente universitária, “muitas vezes os professores aprendem com os alunos. O que quero dizer aos estudantes e à faculdade é que, onde quer que um evento ocorra, qualquer que ele seja, na sua universidade, é algo que vai afectar profundamente a comunidade, os estudantes e de forma negativa, de forma que poderá magoar os estudantes”, alertou, numa tentativa de afastar riscos de mais confrontos.

“Não posso predizer o que vai acontecer, mas acredito que uma das coisas que estes acontecimentos trouxeram foi mostrar ao povo que tem o poder de dizer não ao ódio”.

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