Os primeiros sinais de “contaminação” dos mercados financeiros pelo Covid-19 começaram a fazer-se sentir com o disparar dos níveis de volatilidade alimentados pelos receios de que o coronavírus tenha um impacto sério na economia global.
Se este efeito, mais ou menos natural, seria expectável perante a desaceleração da economia chinesa, foi a reacção do Fed (o banco central do dólar norte-americano) que a despoletou e isso tem que merecer outra apreciação. Com a decisão de cortar a taxa de referência em 0,5%, deu evidentes sinais de pânico, se recordarmos que a última vez que executou tal medida de emergência foi no final de 2007 e que com ela não conseguiu evitar o colapso das bolsas em 2008, e de absoluta ineficácia, pois a medida falhou na tentativa de tranquilizar os mercados financeiros, com os principais índices de Wall Street, do Dow Jones ao S&P, a registarem grandes quedas.
Claro que a expectativa do Fed era a de que a sua actuação tivesse levado à subida das cotações, mas ao contrário o resultado foi o de uma queda de quase 3% e a uma redução da capitalização bolsista superior a 4 biliões de dólares e, pior ainda, quando no mesmo dia o Fed injectou no mercado de dívida de curto prazo 120 mil milhões de dólares, em duas operações distintas.
Quando dificilmente alguém poderá antecipar a evolução do Covid-19 e as novas reacções dos mercados, talvez não seja surpreendente assistirmos a novas e maiores perdas dos principais índices – que o mesmo é dizer a continuação da incerteza e da queda das cotações – com os principais actores a revelarem pouca ou nenhuma capacidade de intervenção ou de inversão da tendência, há já quem antecipe que o Congresso dos EUA está a preparar um pacote de estímulos superior a 9 biliões de dólares para tentar compensar o impacto deste novo curto epidémico na economia norte-americana.
Pese embora o presidente do Fed, Jerome Powel, continue a insistir na ideia que os fundamentos da economia norte-americana são sólidos e fortes, a realidade é que as medidas aplicadas – corte na taxa de juro e forte injecção de dívida de curto prazo (repo) – assemelham-se demasiado às adoptadas em 2007 com vista à contenção da crise sistémica global e com os resultados sobejamente conhecidos, aplicados agora numa conjuntura de taxas de juros já muito baixas.
Contrariando a perspectiva do Fed, o último relatório do IHS Markit para os EUA revelou que a produção na economia norte-americana tinha contraído em Fevereiro, enquanto as principais conclusões dos números do PMI (Purchasing Managers Index) revelam que houve uma contracção na actividade comercial impulsionada por assinaláveis declínios no sector de serviços e que novos pedidos para empresas do sector privado caíram pela primeira vez desde que os registros começaram a ser compilados em 2009. A fragilidade observa-se principalmente no sector de serviços, onde se registou a primeira queda de actividade em quatro anos, mas também a produção industrial quase parou devido à estagnação das encomendas que caíram pela primeira vez em mais de uma década.
A degradação da situação deverá estar ligada ao surto do Covid-19 e manifesta-se na fragilidade da procura em sectores como o das viagens e turismo, bem como através da queda nas exportações e interrupções na cadeia de fornecimentos; tudo contributos que terão levado as empresas a assumir uma maior cautela em relação aos gastos devido aos receios com uma desaceleração económica maior que o previsto e a alguma incerteza antes das eleições presidenciais no final deste ano, expressos na variação do crescimento do PIB homólogo, que caiu de pouco mais de 2% em Janeiro para apenas 0,6% em Fevereiro.
Com o início da fase de contágio global, a propagação do seu impacto e à medida que os dados económicos se forem agravando será de esperar nas próximas semanas e meses uma catadupa de medidas de emergência por parte de bancos centrais e governos por todo o mundo, que nem o anúncio da suspensão da publicação dos principais indicadores da OCDE deverá suster. Se em 2008 a economia global terá sido salva de uma profunda depressão pelas medidas de estímulo lançadas pelas duas nações mais poderosas do mundo (os biliões de dólares usados pelo Fed norte-americano para resgatar os bancos e os mais de 500 mil milhões de dólares gastos pelo governo chinês num gigantesco programa de infra-estruturas), que estimularam a economia global e fizeram aumentar o endividamento para níveis sem precedentes (tão elevado que nunca poderá ser reembolsado), a antevisão de uma repetição dessa estratégia pelos governos e pelos bancos centrais no próximo período, criará ainda mais dívida, não resolverá os problemas de uma economia global afectada por níveis históricos de desigualdade na distribuição da riqueza e que continua a sofrer um gigantesco processo de concentração da riqueza.
O avolumar de dificuldades com a principal economia mundial parece indiciar as crescentes fragilidades do actual ciclo económico, levando a admitir que a próxima recessão atinja uma escala bem maior que a anterior e a fundamentar a antevisão de acções norte-americanas ainda mais agressivas contra os seus rivais e concorrentes (reais e imaginários) num cenário económico e geopolítico crescentemente instável e imprevisível.
Receba a nossa newsletter
Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.