Três eventos mostram a profundidade da crise institucional brasileira, com o governo federal transformado numa “pinguela” que sustenta a agenda liberal do PSDB.Para tal, contribui também o modo como a justiça intervém no processo político, adiando decisões, no contexto de uma crise institucional que contou com a intervenção sub-reptícia de potências estrangeiras, como os EUA, na qual a recente visita do “chefe do posto da CIA em Brasília” ao constitui indicador relevante.
1. Temer e a CIA
Uma breve notícia assinala, com espanto, que o governo Temer revelou o “nome do chefe da CIA no Brasil”, reproduzindo a agenda de Sergio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, onde o nome de Duayne Norman aparece identificado como “chefe do posto da CIA no Brasil”, e que terá sido recebido nessa qualidade, no dia 9 de junho, às 15h, acrescentando, em comentário, que a “equipe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), órgão responsável pela área de inteligência do governo federal, revelou a identidade de um agente da CIA, o serviço secreto norte-americano”.
Sendo um “serviço secreto”, é natural pensarmos que a sigla identificadora da agência norte-americano não devia sequer aparecer na agenda. E, em rigor, sendo conhecida a sua função naquele organismo de espionagem, tal indivíduo não devia ter sido recebido. Naturalmente, a CIA não deveria poder fixar gabinete em Brasília, atendendo à sua natureza e ao historial de ingerências praticadas no Brasil e na América Latina (não esquecendo o papel desempenhado pelos EUA no Golpe Militar de 1964, no Brasil, assim como na instauração da Ditadura Militar de Pinochet, no Chile, ou suas implicações na Operação Condor).
Mas, a diluição da noção de nação que impregna o governo federal justifica, aparentemente, que o órgão responsável pela área de inteligência do governo federal receba, sem mais, um serviço de inteligência estrangeiro e – pasme-se – estampe o nome na agenda, “delatando” assim o próprio visitante. Como se pode constatar, o conceito de “inteligência” aqui considerado limita-se à função de espionagem, não ao bom senso. Daí que a mídia reverbere: “governo Temer revela identidade de agente da CIA”.
2. Temer e a Justiça
Denunciado por Joesley Batista, que chegou a equipará-lo a um “chefe de quadrilha”, Temer reage ofendido na justiça (aliás, fez dessa reação propaganda antecipada, em hipotético sinal de força). Mas, segundo a EBC, um juiz federal recusou a ação protocolada por Temer contra Joesley, dizendo: “Não diviso o cometimento do crime de injúria, tendo o querelante feito asserções que, em seu sentir, justificam o comportamento que adotou . Na malsinada entrevista, narrou fatos e forneceu o entendimento que tem sobre eles, ação que se mantém nos limites de seu direito constitucional de liberdade de expressão”.
A decisão do juiz coloca no seu devido plano a reação de Temer à entrevista dada por Joesley Batista à revista Época, diz a mídia que, “segundo a defesa, a entrevista foi “desrespeitosa e leviana”, além de ofensiva à pessoa do presidente. Para os advogados, as declarações de Joesley levam a sociedade a questionar a honradez de Temer”. É verdade, sobretudo esta última asserção. Também a afirmação, atribuída a Temer, que o empresário é o “bandido notório de maior sucesso na história brasileira”, apresenta alta pertinência (é visível o sucesso, no patrimônio, na maneira como dribla a justiça, na agilidade com que suplanta adversários poderosos) e suscita a interrogação: como foi possível o presidente (mesmo que não eleito) receber semelhante figura no palácio e manter as conversas, que acabaram por ficar gravadas.
3. Temer e a “pinguela”
O jogo político palaciano requer a capacidade de conquistar apoios e evitar desapoios. Além do seu próprio partido, o PMDB, a base aliada que sustenta Temer conta com o PSDB. A sustentação do governo requer o apoio dos tucanos, mas os próprios se encontram a braços com problemas de difícil superação. Por um lado, porque estão em cima da “pinguela” (que, caindo, levará ao rio aqueles que a ela recorrem). A imagem da “pinguela” e do rio é da autoria de FHC, que já disse que será melhor “atravessar o rio a nado”.
O desgoverno de Temer, mantido com o desapoio do PSDB (neste compasso de espera do judiciário sobre a prisão ou não de Aécio Neves), brindou o Brasil com mais algumas pérolas do absurdo reinante. O PSDB marcou uma reunião da Executiva nacional que, segundo a mídia, “tinha como objetivo principal sacramentar a decisão do partido de antecipar para o segundo semestre deste ano a eleição do substituto de Aécio no comando da legenda. (…) A estratégia é tirar Aécio do foco político para que a legenda possa tentar “renovar” sua imagem para as eleições de 2018. (…) A avaliação interna é de que, mesmo que não seja preso, o senador mineiro não tem mais condições de estar à frente do partido”.
Numa atitude exemplar (do modo como as questões nacionais são destratadas pela classe política dominante), a reunião foi adiada pelo motivo mais baixo que um órgão institucional pode apresentar: a “falta de quórum”. Assim teve que ser, até porque o STF adiou também a decisão sobre o pedido de prisão de Aécio.
Conclusão
O descrédito das instâncias políticas representativas dos interesses da burguesia brasileira é total. O governo foi transformado na “pinguela” que sustenta a agenda liberal do PSDB. Do mesmo passo, a “pinguela” serve para adiar o desfecho dos processos jurídicos ou mitigar as suas consequências.
Para tal, contribui também o modo como a justiça intervém no processo político. A PGR requer a prisão de Aécio. O STF adia tomar uma decisão por razão processual (válida, é certo) mas que promete levar o desfecho do processo até às calendas gregas, que será quando a opinião pública deixar de considerar a questão relevante.
A crise institucional atingiu fortemente o estado brasileiro, processo que contou com a intervenção sub-reptícia de potências estrangeiras, como os EUA. Intervenção na qual a visita assumida do “chefe do posto da CIA em Brasília” ao constitui indicador evidente (não da tramóia que os serviços secretos norte-americanos habitualmente fazem, mas da desfaçatez com que, no governo federal do Brasil, alguém assume que recebe os ditames da “voz do dono”).
Por Alexandre Weffort (professor, mestre em Ciência das Religiões e doutorando em Comunicação e Cultura) | Texto original em português do Brasil
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