No ensino de Finanças Públicas e nos estudos comparativos sobre o ciclo orçamental e sobre o ciclo da despesa pública é usual distinguir neste último autorização da despesa, realização da despesa, liquidação, autorização de pagamento, pagamento e considerar, do lado da receita, um ciclo com momentos homólogos.
O ciclo da despesa e as “ajudas” aos Bancos
No ensino de Finanças Públicas e nos estudos comparativos sobre o ciclo orçamental e sobre o ciclo da despesa pública é usual distinguir neste último autorização da despesa, realização da despesa, liquidação (apuramento da dívida), autorização de pagamento, pagamento e considerar, do lado da receita, um ciclo com momentos homólogos.
A realização da despesa envolve geralmente, no caso da aquisição de bens e serviços, a celebração de contrato, a encomenda e a recepção. Mas considera-se como realização da despesa um facto surgido fora do ciclo da actividade de Administração donde resulte para o Estado ou para uma entidade pública a obrigação de actuar, inclusive a de reparar / indemnizar. É o que sucede no caso das catástrofes, depois de uma verificação sumária e determinação do curso de actuação a seguir por parte das administrações públicas, cujos órgãos superiores são o Governo, ou, a nível regional, municipal ou paroquial, os governos regionais, as câmaras ou juntas de freguesia ou a nível de intervenção mais especializada as direcções das entidades reguladoras, com maior ou menor autonomia ou independência. Nessas situações, a despesa está “realizada” antes de ser “autorizada”, ou mais precisamente a autorização é um processo sumário ou tem de ser sucessivamente adaptado por exigência das realidades.
As intervenções relativas a bancos inserem-se numa variante do tipo catástrofe. Não falo dos casos do BCP e do BPI em que foram concedidos empréstimos, assimilados, em certos aspectos a prestações de capital, a uma taxa de 8% perfeitamente aceitável do ponto de vista do interesse financeiro do Tesouro, e que foram recuperados. Não falo igualmente do caso da CGD em que uma administração conseguiu afundar o banco público e obrigou à sua recapitalização, tendo o partido cujo Governo nomeou essa administração ficado politicamente incólume. Refiro-me sim aos casos do BPP, BPN, BANIF (na fase final) e do BES/Novo Banco.
Em todos eles o Estado foi forçado a intervir, no caso do BPP para viabilizar o funcionamento de uma administração provisória antes de se ter tornado óbvia a necessidade de liquidação, e nos casos do BPN, BES e BANIF para evitar uma situação que poderia conduzir à cessação de pagamentos aos depositantes e à liquidação dos bancos, sem que houvesse a intenção de promover a continuidade dos acionistas, que vieram a perder as suas posições. Em todas estas intervenções se registaram situações que talvez fosse possível qualificar como de gestão danosa, como a alienação do BPN em condições que lhe permitiam litigar posteriormente contra o Estado e a subscrição do aumento de capital do Banco Efisa para lhe permitir continuar a operar, vindo a ser logo a seguir alienado por menos do que esse valor.
Com o tempo esbateram-se as recordações sobre as origens destas situações e a percepção da obrigatoriedade de pagamento dos encargos gerados, ficando no discurso político – ou melhor dizendo no discurso dos políticos, incluindo o de António Costa e da população mal informada – a percepção de que o Estado estava a ajudar os bancos e de que, ano a ano, se podia optar, na votação do Orçamento do Estado do ano, por não inscrever verbas decorrentes dos compromissos (talvez mal) assumidos e, generalizando-se em consequência os comentários – há dinheiro para os bancos, não há para as progressões salariais, há dinheiro para os bancos, não há para os hospitais, etc.
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António Costa rasga as vestes quando Centeno, antes de transitar para o cargo de governador do Banco de Portugal lhe diz que já mandou pagar o que decorre dos contratos (mas no dia seguinte amigos como sempre) grupos parlamentares de esquerda e de direita a correm a aprovar inquéritos parlamentares que reverifiquem a auditoria que o próprio parlamento solicitou, sabendo bem que nada irão concluir de muito relevante, e Francisco Louçã na sua coluna do Expresso terá sugerido que a verba para o Novo Banco no OE 2021 só seja incluída num OE suplementar que seria viabilizado à direita. Ou seja, pague-se ao Novo Banco / Lone Star desde que o Bloco de Esquerda não suje as mãos. E não há quem atente em que este cinismo só redunda em descrédito das instituições democráticas.
O campo da auditoria da Deloitte
O relatório encomendado à Deloitte que motivou algum (breve) escândalo nos meios políticos e entre os jornalistas de investigação que, de forma empenhada e competente, vinham analisando a questão das vendas de activos, causou uma alegria esfuziante na Administração do Novo Banco e, com manifestações mais discretas, no Fundo de Resolução, cuja administração é constituída por representantes do Banco de Portugal e da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças.
Em grande parte tal resulta de a Deloitte se ter limitado a procurar confirmar a existência de conformidade do processado com os acordos que entregaram o Novo Banco à Lone Star, num contexto em que intervieram o Estado português, o Banco de Portugal, de quem tinha partido a decisão de Resolução do BES num quadro regulamentar europeu muito recentemente implementado, e a Comissão Europeia, a qual certamente não favoreceu a tomada de controlo por parte do Estado e impôs que o Fundo de Resolução fosse sleeping partner e que o Novo Banco se desfizesse em ritmo acelerado dos seus activos, incluindo participações financeiras, empréstimos dificilmente cobráveis e imóveis dificilmente alienáveis a curto prazo, o que também veio em geral a ser exigido a outros bancos com Non Performing Loans e Non Perfoming Assets.
Seria interessante que fosse avaliado se o contrato de venda defendeu ou não o interesse financeiro do Estado português, e que se comparassem os efeitos, em termos financeiros, do cenário da venda do Novo Banco à Lone Star, que acabou por ser adoptado, e de uma liquidação ordenada do “banco de transição”.
No entanto é certo que não tinha sido pedido que a auditoria questionasse as próprias decisões “fundadoras” da situação que se vive, e talvez fosse difícil a uma qualquer auditora fazê-lo. Mas conviria que o público ficasse alertado para que “mandar fazer uma auditoria” não permite em geral dar resposta a perguntas que não são formuladas nos termos de referência ou cujas respostas não se querem verdadeiramente conhecer.
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Em particular a auditoria poderia ter-se debruçado sobre o chamado “Acordo de capital contingente”, pela qual o Estado se obrigou em geral a compensar o Novo Banco pelas perdas em relação ao valor contabilístico geradas na venda de activos.
Também aqui não tinha sido pedido que a auditora se pronunciasse sobre se as condições do Acordo defendiam ou não o interesse financeiro do Estado – mais concretamente do Fundo de Resolução, que os bancos com obrigação de contribuir para este só ressarcirão, está já convencionado, com um grande atraso.
Limitou-se assim a Deloitte a confirmar se alguns procedimentos que deveriam ter sido implementados pelo Novo Banco o tinham sido ou não, ou, de forma mais subtil, se havia ou não evidência que o permitisse afirmar.
No entanto a forma como em matéria de aquisição / alienação de activos se constituem fundos que podem meros veículos de outras entidades, torna virtualmente impraticável a identificação, exigível, dos beneficiários últimos e a prevenção de conflitos de interesses que para além de assentarem numa formulação vaga – que considera não haver conflito de interesses quando o peso da entidade em relação ao qual estes poderão existir não atinja mais de 25 % do capital do interlocutor envolvido na negociação – assentam, em ultima instância, numa declaração do interlocutor, com os jornalistas de investigação já assinalaram para o caso GNB.
A intervenção do Fundo de Resolução para autorizar algumas operações sujeitas ao mecanismo do capital contingente parece ter tido um impacto muito mais fraco do que seria de esperar. O que não surpreende quando se atenta nas culturas das organizações que concorrem para a sua orientação. A coroa de glória do Banco de Portugal em matéria de gestão de activos parece ter sido a alienação, ao fim de muitos anos, de uma carteira constituída pelos activos da Finangeste que, segundo o que apareceu em alguma comunicação social, terão sido rapidamente revendidos por valores muito superiores. A Direcção-Geral do Tesouro e Finanças, essa, sempre facilitou o write-off de créditos detidos por outras entidades públicas que lhe foram parar às mãos.
Vender activos sem os valorizar os devidamente porque a liderança do vendedor não tem a memória dos custos anteriores incorridos era de esperar desde que a Lone Star tomou conta do Novo Banco. Ter o incentivo de ser compensada financeiramente pelo Estado, na falta de um controlo adequado, em função das perdas aceites e, é verdadeiramente admirável.
Coreografias parlamentares
Que mil inquéritos e auditorias floresçam no seio da Assembleia da República. Fazendo as perguntas certas e obtendo respostas, talvez se chegue à conclusão de que:
- as vendas de créditos se podem ter baseado, com alguma colaboração de quadros ou ex-quadros, na expectativa de celebrar acordos com os devedores, reduzindo o passivo exigível, como já tive ocasião de escrever aqui no Jornal Tornado
- a venda dos imóveis incluídos em carteiras foi, como já tive também ocasião de escrever negligenciada durante muito tempo e depois efectuada, pelo menos em alguns dos casos, a fundos constituídos de forma oportunista e não a operadores regulares de mercado, tendo, como já é público, com garantia do próprio banco.
Certamente aplaudirei o esforço desenvolvido mas quase aposto que, como decorre do relatório de auditoria da Deloitte, se concluirá, mesmo assim, que, num caso e no noutro, não foi ilegal, e que, sobretudo, não desrespeitou o Acordo de Capital Contingente.
Quanto à auditoria pedida ao Tribunal de Contas será um instrumento adequado para ficarmos a saber muito mais sobre a actuação do Fundo de Resolução, entidade integrada no Sector Público.
Mas não faltará muito para que surjam na ribalta outros créditos – os resultantes da execução das garantias do Estado aos empréstimos bancários da crise COVID-19. E nessa altura, suspeito, os pagamentos ao Novo Banco serão esquecidos por comparativamente insignificantes.
9-5-2018 “O que o Parlamento pode – e talvez deva – fazer sobre a CGD”, O que o Parlamento pode – e talvez deva – fazer sobre a CGD
O inquérito parlamentar “salvou-se” do ponto de vista mediático pelo espectáculo oferecido pela inquirição de Joe Berardo, quando haveria muitos outros casos a aprofundar. A CGD anunciou vagamente que ia estudar a possibilidade de demandar ex-administradores, coisa de que nunca mais se ouviu falar.
12-8-2020 Às soluções – que deram más provas – adoptadas nos casos do BPN e do BANIF já me referi em “O fantasma das nacionalizações e a inépcia do Estado- accionista passivo”.).
Salvo no plano inicial para tratamento da situação do BANIF em que o Estado aceitou entrar no capital como sleeping partner.
31-08-2020. Deloitte. Relatório. Novo Banco, S.A. Auditoria Especial nos termos da Lei nº 15/2019 -. Versão truncada.
Ressalve-se todavia a reputação de Luís Máximo dos Santos, actual vice-governador do Banco de Portugal com a responsabilidade da área, na condução justamente de operações de liquidação de activos de bancos públicos sujeitos a intervenção.
15-7-2020, O mítico valor de mercado, I Parte – A Venda de Créditos.
29-7-2020, O mítico valor de mercado, II Parte – A Venda de Imóveis.
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