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Quinta-feira, Abril 3, 2025

O meu corpo jaz vivo pelo deserto

Vitor Burity da Silva
Vitor Burity da Silva
Professor Doutor Catedrático, Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas Pós-Doutorado em Filosofia, Sociologia e Literatura (UR) Pós-Doutorado em Ciências da Educação e Psicologia (PT) Investigador - Universidade de Évora Membro associação portuguesa de Filosofia Membro da associação portuguesa de Escritores

Prego no deserto a insolvência da minha voz contra as quatro paredes do nada, ninguém me ouve porque estamos já todos mortos neste calafrio do desprezo.

O meu corpo jaz vivo pelo deserto. Das ideias. Do mistério. Prego no deserto a insolvência da minha voz contra as quatro paredes do nada, ninguém me ouve porque estamos já todos mortos neste calafrio do desprezo.

Ouvir de longe o silêncio e pasmar, quem sabe um dia cantarei para contentar os meus fantasmas neste areal disperso da cor de tédios envernizados pelo cansaço que o verde das ideias planeia, um fantasma nos subúrbios dos prazeres vendidos ao desbarato para enganar a agonia que resta ainda assim nesta barriga vazia de sonhos.

Dizem ser trauma os alemães, um sonho nunca é coisa alguma, mas talvez isso mesmo e deles se aprende além das guerras que venderam às mortes dissimuladas pela ganância, ensinaram-me que ninguém sonha, tudo o mais é trauma.

Ainda assim, mesmo não sonhando, sinto-me num deserto inerte de ideias que me baralharam os passos, titubeantes e cambaleados como telhas mal colocadas nesta coluna vertebral de dinossauro. Aí sim, o sarau começará dentro de horas para que se divirtam parasitas nas colunas brancas de um jornal inventado para contentar quem sabe ou não ler.

“que importa ler o que não escrito?”

Adocicados remédios para me alimentarem de insulina nesta diabetes de verdetes plantados no coração da coragem, e como precisamos de coragem para não desistir de viagens que nesta altura apenas cansarão e fartaram tal a falta de ideias, arreigados à democracia calamo-nos como mandam os mandamentos da bíblia que todos inventam, cada um possui uma diferente para disfarçar o esgotamento das ideias e alimentarem-nos como pasmos e placebos numa lâmina da farmácia da esquina e a gente sentados à porta esperando pela nossa vez por uma morte digna como tiveram as insanas que nunca tiveram dores sequer.

Os cemitérios iluminados de paz e o deserto tão longe, esta metafísica ancestral que nos alimenta mesmo parados diante do dilúvio encarnado na essência e nos valores da humanidade, sim, valemos apenas pelo registo que deixamos como escamas nas camas de defuntos embelezados pela saudade.


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