Os meus objectos (9)
O relógio do meu pai marcava as horas e os dias. Ou pelo menos assim me parecia quando era criança. Era um simples relógio de pulso e foi nele que aprendi a ver as horas, descobrindo e sentindo, sem o saber, a passagem do tempo.
Naquele tempo em que os automatismos ainda eram um sonho (ou quase), o relógio era daqueles a que se tinha de, diariamente, dar corda para que continuasse a funcionar. Muitos dias era eu que fazia essa operação: dar corda e esperar que nem o relógio nem o tempo parassem ou se atrasassem. De certa forma, talvez eu pensasse que conseguia controlar o tempo. Como estava enganado!
Passaram talvez 50 anos e, hoje, o relógio está guardado numa caixa em minha casa. Está parado mas ainda funciona se lhe der corda. Mas, não sei bem porquê, não o faço. Com a idade e envelhecendo, a vontade de que o tempo não se apresse (ou, pelo menos, abrande…) ganha cada vez mais força.
Na infância o tempo demora a passar, temos a sensação de que nunca mais crescemos, de que falta ainda muito tempo para sermos gente grande. Queremos correr rumo à juventude, à autonomia e a uma maior liberdade.
Agora, muitos anos depois, cada dia parece que passa muito mais depressa. No entanto, como sabemos, os minutos continuam a ter 60 segundos. As horas mantêm os seus 60 minutos. E o dia dura as mesmas 24 horas.
Tenho verdadeiras saudades de quando o relógio do meu pai marcava as horas e os dias. Nesse tempo, tudo ainda parecia infinito. Tinha a sensação (ou a certeza?) de que teria tempo para tudo. Muito tempo até. No entanto, hoje, sei que isso nunca foi verdade e, se há arrependimento que eu tenha, é este: o tempo desperdiçado.
Hoje, correndo contra o tempo, procuro outro relógio. Um em que as horas demorem mais uns largos minutos. Ainda tenho tanta coisa para fazer e tão pouco tempo.
Onde existirá esse relógio?