Poema inédito de Beatriz Aquino
Quisera eu saber conter a lascívia dos acontecimentos
Quisera eu saber conter a lascívia dos acontecimentos,
domar a crina selvagem das circurnstâncias.Brinco de mestra das horas,
escrevo cartas, decretos, poemas…
Algo que explique ou catalogue o cio inexplicável da vida.Poderia contar amores nos dedos de uma das mãos,
e nos da outra, contabilizar desastres.
E é o que faço. Alinhavo quedas, bordo perdas,
faço um ramo de flor por onde passou a faca,
arremato por cima, um broche herdado da avó…Essa coisa de poesia é brincar de Chronos,
fazer o trem dos sentidos ir e voltar
e com isso cavar feridas antigas, jogar sal em cicatrizes,
sorver, do corte já fechado, o último sumo de sentido.
Ou quando tudo corre bem,
sentir novamente o gosto do beijo que se alojou
nas frestas do coração.Isso tudo consigo. Com louvor até.
Mas conter ou me antecipar aos acontecimentos, não alcanço êxito.
Não mesmo.
A cigana é tão vítima das cartas quanto qualquer um de nós…Esse posto de expectante me exaspera.
Quero mesmo é redesenhar as córneas do Cristo,
entender em suas formas, o segredo de amar.
Mas quando diante dele, choro e penitencio como qualquer outra.
Burra, entregue, criança…Deve ser assim que se chega e se vai do altar da vida.
Os afrescos e vitrais girando em carrossel
e você não sabe se é o rebobinar da tua existência
ou se é a roda do futuro apostando teus passos no mundo.Aqui nessa Terra,
chega-se e vai-se tão nu
e tão ingênuo quanto um filhote de cordeiro.
Ou qualquer outra cria que nos agrade os olhos.
Tanto o resmungar da velhice quanto o choro do recém nascido trazem
senão o mais profundo mistério e espanto.Quisera eu saber conter a lascívia dos acontecimentos…
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