Após um mês completo de greves e manifestações, iniciadas contra a reforma fiscal proposta pelo presidente Iván Duque, deparamos com a Colômbia numa situação que a não ser invertida com rapidez poderá conduzi-la ao desastre.
Quarenta e três mortos, mais de 2150 feridos e 129 desaparecidos, pelo menos. Vários ministros — quatro, para já, mais dois, previsivelmente — e o negociador governamental com os manifestantes substituídos. O Ministro da Defesa — que tutela as Forças Militares e a Polícia Nacional — submetido a um processo de destituição no Congresso. Declarações internacionais, vindas dos mais variados quadrantes, de condenação do uso excessivo da força por parte das autoridades. Situação económica geral precária, com a indústria extractiva (petróleo e carvão) e o sector agrícola a sofrerem impactos negativos. Desvalorização do Peso colombiano face ao Dólar dos EUA. Diminuição do rating da dívida pública. Este é o resultado de um mês de greves, manifestações e protestos vários, maioritariamente pacíficos, misturados com bloqueios rodoviários, vandalismo e brutalidade policial. Os mais recentes protestos podem ser considerados uma continuação dos que começaram em Novembro de 2019 e que prosseguiram em Setembro de 2020, já em plena pandemia e que esta abafou. Como pano de fundo de tudo isto, a Colômbia tem mais de 86 mil mortos devido à covid-19 e um total de mais de 3,3 milhões de contagiados com o SARS-Cov-2, estando em pleno 3º pico, com máximos de contágios a serem ultrapassados diariamente.
A conjuntura em que encontra-se aquele país andino não é a melhor. Não vislumbra-se, para já, outra saída para a actual situação que não seja uma negociação séria, franca e aberta entre o Governo e quem representa, em parte, os manifestantes, o Comité Nacional del Paro. Desta forma, irão de encontro aos apelos feitos, entre outros, pelo Papa Francisco no Domingo de Pentecostes.
Por parte do Comité Nacional del Paro espera-se que haja bom senso e que não façam exigências irrealistas, como manter o protesto indefinidamente, como alguns dos seus integrantes sugeriram. Acima de tudo, espera-se que estejam efectivamente empenhados em solucionar esta situação de uma forma pacífica.
Todavia, o termo desta crise está principalmente nas mãos do presidente Iván Duque. Ele tem de encontrar rapidamente uma solução. Se não, a situação poderá deteriorar-se a tal ponto que já não haja retorno possível à normalidade. Não vale a pena o governante escamotear as suas responsabilidades ou apontar o dedo a outros culpados. Duque foi eleito pelos colombianos para solucionar os problemas dos seus concidadãos, não foi para agravá-los. Tem que fazer tudo o que esteja ao seu alcance para resolver ou remediar o melhor possível esta crise. Parece-nos pouco provável que o consiga, pelo que (não) foi feito até agora, em quase três anos de mandato presidencial. Com a agravante de não ter cumprido com o que foi acordado com os manifestantes em 2019 e 2020. Com a pior taxa de aprovação de que há registo, poderá ser tentado a militarizar o país. Essa será certamente uma decisão funesta que só irá gerar mais violência, o que poderá levar a Colômbia para caminhos extremamente perigosos.
Os pré-acordos para a negociação entre as partes entretanto alcançados e as medidas de reactivação económica anunciadas pela alcaldesa de Bogotá, Claudia López, são bons passos para a resolução desta crise. Mas devido à perda de credibilidade do actual Governo perante a maioria dos colombianos, talvez só haja uma solução para o próximo ano, quando realizarem-se eleições para o novo Presidente. Resistirá a Colômbia até lá?