Poema inédito de Beatriz Aquino
Te escrevo do escuro.
Pois sei que minha memória de ti aos poucos se apaga.
Esse poema agora será então a noite dos nossos dias.
Amanhã seremos dois estranhos.
Mas hoje,
no familiar que ainda nos resta,
nesse pedaço de pele que ainda é tua,
deixe que eu te ame.
Que nos percamos na madrugada turva dos amantes em fuga.
Que nossos corpos se contorçam, se mordam, se beijem
e tirem de cada um deles a mordaça do sono.
Que gritem, que chorem, que cantem.
Para que neles não sobre nenhuma mentira.
Que queimem e que renasçam nas chamas inapagáveis do amor.
Para que amanhã sejam encontrados puros e mortos pelos bêbados
e pelos anjos do amanhecer.