Poema de Filipa Vera Jardim
Trans-pareces-me
Escreveste…
Escrevi!
A traços negros, a pousarem-te os olhos nas curvas apressadas do meu corpo.
Vertigem descompassada de um beijo surpreso e, rodado nos lábios. Firmemente rodado, numa vertigem.
Escreveste mesmo…
Escrevi!
E os teus olhos, a obrigarem-me a desejar sequer ter escrito.
Uma página a menos, agora invertidamente carimbada, no lençol debaixo, da minha e da tua existência. Faria diferença? Faria assim tanta diferença?
– Quantas sílabas escreveste tu?
Duas, apenas. Uma para te dizer que sim. Outra para te fazer esquecer…
Nunca tinha visto esse pássaro que transportava no bico uma borracha. Aproximou-se do parapeito e pouco a pouco, retirou a tinta de todas as penas.
Antes de partir, deixou cair a borracha. Não haveria mais cores, nem mais assombros. Nenhuma paisagem desalinhada no horizonte da nossa memória.
Levantou voo sem ruído e, levou consigo, toda a tua transparência.